‘Gato’ quer voltar a Jundiaí, explica por que mentiu e pede perdão

A história de Heltton Matheus Cardoso Rodrigues mexeu com o futebol brasileiro nas últimas semanas e gerou muitas discussões entre revolta, compreensão e complacência. Responsável por falsificar a própria identidade para jogar a Copa São Paulo de Futebol Júnior pelo Paulista, o jovem zagueiro de 22 anos, que atuava com o nome de Brendon Matheus, amigo de infância de Heltton no Rio de Janeiro e que hoje está preso diante da acusação de tráfico e roubo a um posto de gasolina, revelou ao programa Mesa Redonda, da TV Gazeta, que pretende voltar à Jundiaí para se desculpar pessoalmente e contou que pensa em pagar essa dívida pessoal no futuro. Tudo isso porque sua ex-equipe foi punida com a eliminação da Copinha depois da descoberta do caso. O Paulista faria a grande final contra o Corinthians.

“Não estou com medo (de ir a Jundiaí) porque quando eu menti não tive medo, então, eu tenho que ser homem e assumir pessoalmente, porque quando eu menti eu menti pessoalmente. Se Deus quiser, se daqui para frente eu engrenar e me formar um grande jogador, quero voltar em Jundiaí, se me aceitarem. Por um preço? Não. Mas pela dívida que eu tenho”, contou o jovem criado em São Gonçalo, na favela da Catarina.

“Se eu puder fazer alguma coisa por aquele povo, porque querendo ou não, Jundiaí estava morto, o futebol estava morto. O jogo dos profissionais não dava 200 pessoas. Começou a Taça e a gente chegou a 13 mil pessoas no estádio. Isso foi um marco. Os momentos mais felizes da minha vida foram no clube. Se eu puder ajudar e eles aceitarem, eu vou ajudar. Pela forma como fui criado, a gente costuma reparar quando erra”, completou.

Com o documento falso, Heltton, além de ser chamado de Brendon, também tinha apenas 19 anos. Assim, ele fez testes no Ceará, passou pelo América de Natal e disputou a mesma Copa São Paulo no ano passado pelo Nacional-SP. Agora, arrependido e disposto a se retratar e pagar por tudo o que fez, Heltton aproveitou a entrevista ao Mesa Redonda para revelar o motivo de não ter falado a verdade quando teve a oportunidade.

“Eu tive a oportunidade de falar a verdade um dia antes do jogo da semifinal. Houve uma reunião, onde os diretores e treinadores me colocaram na mesa e perguntaram sobre o fato ocorrido, e eu me omiti. Não falei a verdade. Até porque eu senti que se naquele momento eu revelasse tudo, eu ia acabar me prejudicando, como eu me prejudiquei, mas achei que seria mais ainda, porque não teria ninguém a meu favor, eu estaria sozinho. Então, me omiti, mas desde o momento que saí da minha casa com essa atitude. Eu sempre pensei em jogar com meu nome, com a minha idade. Naquele momento não falei a verdade por medo mesmo, omissão, covardia, mas sempre pensei em me entregar e falar toda a verdade”, disse, sem procurar dar desculpas.

“No Catarina, quem me conhece sabe, não tenho necessidade de fazer sensacionalismo, mas de cinco que nascem, quatro estão fardados a fazer coisa ruim. Mas, se todo mundo que passasse por uma situação ruim quisesse cometer um crime, o Brasil estaria pior do que está. Não estou aqui para amenizar, estou aqui para assumir, na verdade, porque a vítima não sou eu, são meus colegas de time que não tiveram oportunidade de jogar a final, meu treinador Humberto, que fez um trabalho excelente”, continuou.

Formado no ensino médio, Heltton considera que teve uma infância boa junto a seu pai, pintor de automóveis, sua mãe, caixa de supermercado, uma irmã mais nova por parte de pai e “duas irmãs de consideração”. O zagueiro, que apareceu após quatro dias de sumiço, não escondeu que se assustou com tanta exposição, mas agora está empregado do Osasco Audax por decisão de Vampeta, presidente do clube paulista, e pensa em fazer Educação Física.

“Eu tinha um sonho de criança, tenho, e graças a Deus o Vampeta pôde me ajudar a retomar minha carreira. Tive uma atitude equivocada perante aquilo que eu queria realizar na minha vida em prol de ajudar meus familiares e amigos, e acabei tomando decisões que acabaram afetando não só na minha vida. Infelizmente acabei magoando muitas pessoas, principalmente os torcedores de Jundiaí, queria pedir perdão, me retratar”, reforçou.

Alto, magro e com certa facilidade em se expressar mesmo diante da situação tensa, Heltton também explicou na noite deste domingo o que o motivou a tentar ser tornar jogador ao custo de cometer o crime de falsificação ideológica, já que nunca havia passado por categorias de base, apesar de ter participado de algumas peneiras.

“Eu decidi quando minha mãe chegou do serviço e disse que foi agredida verbalmente pelo patrão dela e não teve como se defender porque seria demitida. A gente estava passando por uma situação delicada, eu fui tomado por muita raiva e tomei essa decisão. Eu estava no Rio ainda e quando eu saí para seguir a carreira eu já tinha feito”.

Apesar de se mostrar bem ciente de tudo o que fez de errado, da proporção e dos reflexos que seu erro causou, Heltton espera conseguir recomeçar sua vida no Osasco Audax. Ele vai responder perante a Justiça pelo ato criminoso e deve levar uma punição esportiva também. Mesmo assim, o que o jovem zagueiro espera é ter uma nova chance.

“Quero colocar uma pedra em cima disso. Se a gente fica enfatizando nessa tecla, acaba machucando mais ainda. Então, para não ficar remoendo, queria colocar um ponto final nessa história e virar a página na minha vida com essa oportunidade que o Vampeta me deu”.

 

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30/01/2017

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